A liga dos intrujões

À chegada a Luanda, Fiston e Guelor, dois primos oriundos de Kinshasa, não tiveram qualquer dificuldade para realizar o plano traçado no outro lado da fronteira. Em poucas semanas, graças a um recrutamento que envolveu pesquisas por bairros como Mabor, Palanca e Petrangol, os dois congoleses já haviam definido as funções para cada um dos 10 novos integrantes do grupo, que seria repartido ao meio.

Uma parte ficou com Fiston e a outra com Guelor, que trabalhariam como se nunca se tivessem visto em toda a vida. Divididas as equipas, faltava apenas aos dois primos decidir quem faria o quê!

Foi aí que Guelor, que era o mais velho, preferiu ficar com o papel de kimbanda, deixando para Fiston a responsabilidade de simular que era um pastor com poder para falar com Deus.

Tudo alinhado, Guelor foi o primeiro a actuar. Abriu uma kimbandaria onde os clientes saíam da consulta com uma grande vontade de cometer suicídio, tal era o choque causado pelas revelações do competente adivinhador. “Eu não tratar, eu só adivinhar; eu não curar, eu só ver”, dizia o bruxo, enquanto bungulava ao som do batuque tocado por um dos assistentes.

Após esse ritual, com a batucada a subir de ritmo, um segundo assistente entregava a Guelor um balaio com búzios, pedaço de caveira e um quibuto de missangas coloridas, que o kimbandeiro ia desenrolado à medida que adivinhava os pormenores da vida do cliente e revelava-lhe os causadores do problema, que normalmente eram familiares, amigos e vizinhos. O cliente, então, tirava o dinheiro para pagar a consulta, mas aí o grande feiticeiro se zangava, gritando que as suas mãos puras não podiam tocar em coisas contaminadas. “Pagar é aí, pagar é aí”, dizia o bruxo, sempre a bungular, apontando para a sala onde se encontrava um terceiro assistente.

À saída, já com os bolsos devidamente esvaziados, os clientes eram acompanhados por um quarto assistente, que aproveitava para lhes dizer que conhecia um pastor altamente espiritualista, capaz de curar os males diagnosticados pelo kimbandeiro e ainda oferecer protecção contra os futuros ataques de bruxaria. Dias depois, os mesmos corpos que haviam passado pelas demoníacas sessões de adivinhação suplicavam, agora, pela presença de Deus, lançando fervorosos aleluias e améns ao pastor Fiston, que impressionava todo o mundo, ao revelar, com os pormenores de um escritor do Realismo, as peripécias por que haviam passado os crentes, antes mesmo que estes dissessem sequer como se chamavam.