A FALÁCIA DO DIÁLOGO

Não é preciso ir-se além do horizonte para se encontrarem as respostas que verdadeiramente interessam. A questão de fundo, na crise política e social vigente, não reside na ausência de diálogo. Nada é mais desavisado ou enganoso do que afirmar o contrário. E o próprio ‘modus operandi’ do Presidente da República ajuda a esbater as dúvidas.

João Lourenço até pode ser acusado de tudo, menos de ser avesso ao diálogo. Ainda que essa abertura, mais do que pela sua personalidade, seja justificada pela circunstância de ter chegado ao poder num período menos tolerante ao monólogo de quem governa. De forma genuína ou não, o certo é que o Presidente deu sinais de abertura desde o início. Começou pelos detractores radicais de José Eduardo dos Santos, num dos primeiros sinais de que estaria disposto a mover montanhas para afastar-se do homem que o colocou no poder. Passou depois para a sociedade de forma mais genérica. Conversou com jovens em Luanda e em outras das províncias para onde se deslocou muito antes de a contestação contra o seu governo subir de tom. Colocou, no Conselho da República, figuras menos coladas ao regime e, mais recentemente, criou o Conselho Económico e Social, também com várias pessoas habituadas a pensar com a própria cabeça. Mas não se ficou por aí. Juntou-se antes ao universo das redes sociais, onde mantém contacto mais tempestivo e regular com a sociedade, quebrando a forma de comunicação anacrónica com que o Palácio brindava o país. Tudo isso junto dá, como resultado, um Presidente aberto e dialogante. Muito dialogante até, sublinhe-se. A falta de diálogo entre governados e governantes não é, portanto, o cerne da actual crise.

O que está em causa, mais uma vez, é a convicção do falhanço generalizado das principais promessas de João Lourenço. Os cartazes dos jovens que vão à rua não rogam pelo diálogo, pedem emprego. Denunciam a luta selectiva contra a corrupção. Exigem verdadeira independência para os Tribunais. Ordenam a credibilização da Comissão Nacional Eleitoral. Impõem a marcação de eleições autárquicas. E lembram, resumidamente, que não se marca um passo na despartidarização do Estado. Estas são as questões de fundo que não se resolvem com mil diálogos com o Presidente da República e/ou com os seus auxiliares. Os jovens que exibem a saturação nas ruas do país sabem disso e sabem que não se representam apenas a si próprios. Representam uma maioria agastada, em que se incluem crianças, adultos e velhos. E os jovens sabem mais. Sabem que a credibilização da CNE e dos Tribunais e que a marcação das eleições autárquicas dependem da vontade de um só grupo, senão de uma só pessoa. Por isso, interpretar as reivindicações dos jovens como uma herança da cultura do sucesso fácil, ‘ensinada’ pelos adultos, é de uma esquizofrenia perturbadora. Ou, no mínimo, uma tentativa de manipulação encapotada. Que venha o diabo e escolha