Kamanda Kama Sywor, da RDC, um dos escritores de língua francesa mais estudados do mundo

Poeta do Milénio apela à “criação da alma africana”

O contista congolês Kamanda Kama Sywor esteve em Luanda para interagir com a comunidade literária. Num encontro na União dos Escritores Angolanos, com meia dúzia de autores locais, o africanista defendeu que o desenvolvimento sustentável em África passa por uma forte interacção entre os intelectuais do continente e desafia à criação de uma ‘Alma africana’. Mas também defende a autonomia de África na economia para não se seguir os padrões estrangeiros.

Poeta do Milénio apela à “criação da alma africana”

O escritor entende que há um “esquecimento (de quem somos), o que permitiu a desvalorização das nossas coisas”.

Reconhecido em 2000 como ‘Poeta do Milénio’, pela Academia Internacional dos Poetas, Kamanda Sywor defende a necessidade de o povo africano “evoluir através da interacção, porque um povo é construído sobre elementos que constituem sua identidade”. O escritor entende que há um “esquecimento (de quem somos), o que permitiu a desvalorização das nossas coisas”.

“Uma forte relação interactiva entre intelectuais africanos precisa-se”, insiste o escritor, independentemente da língua, cultura e origem de cada um. “Precisamos criar uma alma africana”, reforça o escritor e poeta, nascido na República Democrática do Congo (RDC). Segundo ele, este desejo passa, por exemplo, no campo literário, pela tradução de obras de escritores africanos, de país para país.

“Essa construção da alma passa pela aceitação do homem africano como um todo, e não a separação entre povos, congoleses, angolanos, etc., exemplifica. O autor não tem dúvidas de que este conceito filosófico da ‘Alma africana’ “ajuda a apagar pensamentos segregativos como o racismo e outras barreiras”.

Acredita que parte das dificuldades encontradas no desenvolvimento dos africanos são mesmo impostas pela falta de comunicação por estradas que ligam os países e, por isso, até se questiona se existe mesmo uma União Africana.

Observa que hoje a educação e desenvolvimento são baseados em financiamento de doadores ocidentais, “por isso é difícil chegarmos à autonomia financeira”, refere. “Os doadores é que escrevem os nossos livros, e fazem-no de propósito, para satisfazer os seus interesses”.

Para o obreiro do célebre ‘Les Contes des veillées africaine’ (‘Os contos do serão africano’), o negro é vítima de racismo porque o dinheiro continua a ser o “centro da economia e se, o negro não conseguir controlar o seu dinheiro, não podemos ser autónomos”. “Precisamos de observar isso para chegarmos à independência financeira”, acentua. Avisa que é a autonomia financeira que vai permitir construir infra-estruturas sociais e sanar problemas básicos. “Como queremos que nos respeitem? Por isso, quando falamos de democracia, os outros riem”, alerta. “Porque é que o dinheiro de africanos investidos na Europa nunca volta?”, questiona-se. Neste aspecto, sugere a criação de normas fortes, que defendam os valores do homem negro.

 

Encontro com fraca representação

Kamanda Kama Sywor esteve em Luanda para participar num encontro a convite da Alliance Française. Mas o objectivo, a interacção com intelectuais, não foi suficientemente alcançado. Depois de palestrar e conviver com as crianças da escola francesa, Kamanda Sywor foi recebido na União dos Escritores Angolanos, para um ‘Encontro de escritas’, no âmbito do quinzenal evento literário ‘Maka à Quarta-Feira’. O pequeno anfiteatro, com alguma clareira a meio da plateia, foi salvo pelo escritor Carmo Neto, que apresentou e mediou a comunicação do convidado. Participou também a escritora Marta Santos. Ainda animaram o debate membros do movimento literário ‘Litteragris’, liderado por Hélder Simbad. Havia também muitos jovens entusiastas. Mas nenhum célebre escritor angolano. Aonde deveriam estar? Era com certeza a pergunta que martelava no cérebro do escritor congolês, que soube astutamente disfarçar com risadas e gargalhadas provocadas pelo próprio quando misturava os apelos à união entre africanos e suas peripécias na procura da realização do primado da ‘Alma africana’.

 

Um quase ‘Nobel’

Com reconhecimento em academias e universidades de África, América, Ásia e Europa, Kamanda Kama Sywor é romancista, dramaturgo e ensaísta, de 66 anos. Combina contos, memórias pessoais, tradição e imaginação com temas folclóricos e lendas da África central. Traz animais e personagens diferentes daqueles que estamos habituados, com macacos a discutirem com tartarugas, por exemplo. Desde a sua primeira publicação, em 1967, com ‘Contes de Kamanda’, além de alguns romances, tem 12 livros totalizando mil poemas, uma dúzia de peças, dois ensaios e colecções de centenas de contos. A obra mais conhecida é a colecção de contos: ‘Les Contes de Vaillées’. É detentor de vários prémios e distinções internacionais, com destaque a Poeta do Milénio, em 2000, pela Academia Internacional dos Poetas; Prémio da Paz Internacional, em 2006, pela Convenção Cultural Unida (nos EUA); Grande Prémio da Africa Negra, com o livro ‘La nuits des Griots’; Foi premiado por três vezes na Academia Francesa. Em 2005, integrou o top cem dos escritores, no Centro Biográfico Internacional, foi ainda Homem do ano, pelo Instituto Biográfico Americano.

 

 

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