António Ole, artista plástico e realizador

“Os artistas andam sempre na cerca da sobrevivência”

Sonhava ser arquitecto, mas o destino fintou-o. Tornou-se o artista plástico angolano mais consagrado pelo mundo. António Ole, de 67 anos, tem obras espalhadas pelo mundo, já participou em leilões importantes em Londres, no Reino Unido. Com mais de 50 anos de carreira, em entrevista ao NG, faz um balanço “positivo” do seu percurso, assume-se como um “teimoso e resistente”, recusa-se a fazer comércio de arte e critica a falta de apoio estatal para a cultura.

“Os artistas andam sempre na cerca da sobrevivência”
Manuel Tomás

António OlePlástico e Realizador

O problema é que o apoio governamental é sempre moral, não é um apoio concreto. Cada vez mais patrocinadores fogem, também não têm como apoiar.

Com mais de 50 anos de carreira, que balanço é que faz deste percurso?

Sem dúvida, um balanço positivo. Nem sempre corre como a gente quer. Quando é hora de distribuir o orçamento, a cultura fica sempre no fim. Realmente, fica difícil fazer omeletas sem ovos. A minha actividade como artista plástico espalha-se pelo cinema e pela fotografia. O grande problema é que o Ministério da Cultura luta com as verbas, não consegue pagar quando faz contratos como fez comigo. Até hoje, ainda não vi o retorno do Governo. O Ministério queixa-se e o que é que eu vou fazer? Não é fácil, da minha parte, há uma certa teimosia porque não sei fazer outra coisa, e insisto periodicamente em expor o meu trabalho.                             

O Estado tem-lhe dado o devido valor?

O Estado não pode dizer que não existo. Existo há muito tempo e sou teimoso e todos os anos apareço em exposições. O problema é que o apoio governamental é sempre moral, não é um apoio concreto. Cada vez mais patrocinadores fogem, também não têm como apoiar. Se calhar, é uma fase, resultado da crise económica, falta de investimentos para certos sectores nefrálgicos da sociedade e que levam tempo até renegociar qualquer coisa que seja mais equilibrada. Os artistas andam sempre na cerca da sobrevivência. Temos é de continuar com a nossa teimosia de pedirmos com mais eficácia investimentos para as artes.

Onde é mais conhecido, em Angola ou no exterior?

Na Europa, as pessoas são mais entusiastas e mostram mais interesse pelo meu trabalho. Aqui, claro, que as pessoas me conhecem. Sou um dos mais antigos da nossa banda.

Se pudesse ajudar o Estado a criar políticas para promover e divulgar as artes, quais seriam?

Durante anos, andaram sempre a tentar arranjar-me cargos, coisa que sempre recusei e até hoje recuso. O meu papel é mesmo ser artista. A minha função é aqui, não é a dirigir nada e a impor. Não me interessa. Quero ter tempo para produzir o meu trabalho, que me exige um desgaste grande e sempre a tentar estilisticamente novos caminhos.

Como vê as artes plásticas actualmente?

As artes plásticas têm evoluído enormemente e principalmente pela chegada de novos artistas e novas propostas. De repente, há aqui uma quantidade de jovens talentosos. Um até com alguma circulação internacional e isto faz-nos encarar a arte com alguma esperança.

Quando os artistas são escolhidos para expor no exterior recebem algum apoio do Estado?

Não estamos à espera de nenhum apoio do Ministério da Cultura, porque tem dificuldades financeiras. Normalmente, vamos quando do outro lado nos mandam o bilhete de passagem e quando sabemos que há alguém no aeroporto à espera para nos instalar no hotel. Sou muito convidado a dar aulas fora, mas aqui contam-se, pelos dedos, as vezes que fui convidado.

Angola tem boas escolas de arte?

Do ponto de vista pedagógico e de equipamento, ainda não está suficientemente apetrechada. Não sou exemplo para ninguém porque nunca fiz escola de belas artes. Queria ser arquitecto. Mas naquela época nem sequer tinha uma faculdade de arquitectura, éramos sempre obrigados a estudar fora.

E autodidactas…

É bom passarem pela academia porque ali se aprendem técnicas, noções da arte universal e se sistematiza um tipo de ensino que ajuda o aluno a construir a sua própria personalidade artística.

Como consegue material para o trabalho?

A gente tem de vender alguma coisa para sobreviver e para encontrar materiais. A luta pelo material é a principal dificuldade de todos os tempos, agora mais ainda porque o país atravessa um momento mau em relação a divisas e não é fácil, neste momento, termos sempre este dilema de como continuar. África do Sul e a Namíbia têm sido um dos recursos.

Como devem ser entendidas as suas obras?

As pessoas não têm de entender todas as minhas obras. Sou muito irrequieto. Quando faço uma obra de 10 peças, depois já tenho de fazer outra coisa contra aquela fase. Senão, vamos estar sempre a fazer a mesma coisa. Recuso-me a fazer comércio da minha arte. Gosto de ser surpreendido e de surpreender o meu público. É isto faz-me estudar aderência, experimentar coisas do domínio da gravura e da fotografia. Há obras mais estranhas, abstratas e que não lidam com a figuração, mas o artista também tem a liberdade de experimentação. Às vezes, há coisas que a sociedade deita para o lixo e apanho e depois monto a minha obra. Isso tem sido um pouco a errância do meu trabalho, o ir à procura de coisas que não são nada e que depois se transformam em obras a partir do momento em que a gente faz uma intervenção séria, estética e cívica a esses objectos.

Quanto custa uma obra sua?

Com esta desvalorização, os preços vão subindo, um milhão, dois milhões, três milhões. Tenho uma cotação e respeito esta cotação. Tenho participado em muitos leilões, já participei em três leilões grandes em Londres, isso também nos faz aferir a nossa cotação no mercado internacional. Portanto, as minhas obras não são baratas.

Quem são os principais coleccionadores das suas peças?

Bancos. Muitos bancos. Nos últimos anos, há um grande investimento e parece-me que é uma forma de ganharem património artístico. De vez em quando, pequenas instituições. E evidentemente, há os coleccionadores privados que têm vindo a crescer.

Qual é a melhor hora para pintar?

Trabalhei muito à noite, agora já não tenho idade. Prefiro descansar à noite e trabalhar durante o dia, bem cedo de preferência. 

Quais são as suas principais influências?

Quando miúdo, Pablo Picasso influenciou-me muito. Com o tempo, fomos encontrando o nosso pé, caminhado à procura das nossas inquietações e olhar para a sociedade como um todo, olhar para as tradições.

De que artistas angolanos gosta?

Kiluanje Kya Henda, Yonamine, Jorge Gumbe, Francisco Van, Paulo Kapela. Temos aqui um potencial enorme.

A arte angolana é mais consumida em Luanda…

Sim. Temos de pensar seriamente numa descentralização e dividir um pouco com as outras províncias, tem de haver movimentação. Também não ajudam nesta movimentação...

Quem devia ajudar?

O Ministério da Cultura é que tem de promover que isto funcione e criar instituições com qualidade onde se possa mostrar os nossos quadros ou inventar novos espaços. Há muitas formas. Por exemplo, uma vez participei num projecto na Holanda, em que a exposição foi dentro de um parque de estacionamento. Aqui também se podia fazer.

De olhos no cinema

Formou-se em cinema, gostaria de voltar a filmar?

O cinema é um produto de luxo. Temos de encontrar financiadores, na maioria das vezes, fora. O Estado não tem condições de nos dar nenhum centavo para fazer filmes. O cinema angolano teve um ‘boom’ a seguir à independência, acabávamos anos em que fazíamos 200 filmes. Em certa altura, isto quebrou. E as nossas instituições ligadas ao cinema, produção e distribuição deviam fazer uma reformulação.

E a cinemateca?

Os nossos filmes estão a apodrecer em condições difíceis. Sem a temperatura própria, uma boa parte está a desfazer-se com aquele cheiro de química. Se se for a tempo, se se pensar, vamos ter aqui uma estratégia para recuperar as nossas imagens e histórias. Há um risco de isto tudo desaparecer e isto é uma das angústias dos profissionais das artes visuais.

Como podíamos resgatá-los?

Encontrar pessoas apropriadas que aconselhassem o que fazer com este manancial de película com que filmámos a nossa história. A história está a ir para o lixo literalmente.

Como vê o novo contexto sociopolítico do país?

Estas mudanças são fundamentais, novas ideias, isto é bastante positivo. Sou um entusiasta de aguardar as novas transformações na sociedade.

Sente que as artes vão ser mais privilegiadas?

Oxalá! Fico sempre à espera. Qualquer dia façamos qualquer coisa para chamar atenção. Também fazemos parte deste espírito de reconstrução nacional.

 

À volta do mundo

Citado em mais de 30 colecções, artista plástico, fotógrafo e realizador de cinema da primeira geração, António Ole nasceu em Luanda, há 67 anos. Estudou cultura afro-americana e cinema na Universidade da California, Los Angeles, nos EUA (UCLA). É diplomado pelo Centro de Estudos Avançados do Instituto de Cinema Americano, Los Angeles. Detentor de diversos prémios, entre nacionais e internacionais, as suas obras são apresentadas em várias exposições, em bienais e festivais em diferentes cidades, pelo mundo: Havana, São Paulo, Sevilha, Madrid, Paris, Tóquio, Estocolmo, São Tomé e Príncipe, Washington, Nairobi, Berlim, Joanesburgo, Dakar, Amesterdão, Porto, Veneza e outras. No cinema, dirigiu os documentários ‘Os Ferroviários’, ‘Aprender’, ‘O Ritmo do Ngola Ritmos’, ‘Carnaval da Vitória’, ‘Sonangol: 10 Anos Mais Forte’, ‘No Caminho das Estrelas’, entre outros.

“Os artistas andam sempre na cerca da sobrevivência”

 

'Ossos do Ofício’ no Camões

Pintura, fotografia e instalação, numa exposição que reúne cerca de 50 obras, parte delas inéditas, fruto de um trabalho, aventuras, conquistas de prémio, reconhecimento nacional e internacional e, acima de tudo, “muito prestígio e mestria técnica, conceitual e filosófica”. ‘Ossos do Ofício’, de António Ole, é a amostra que se vai estender até 19 de Janeiro de 2019, no Centro Cultural Português, em Luanda, e presta uma homenagem à memória dos que já partiram, porque “os mortos desaparecem, mas renascem na nossa memória”, argumenta o artista.

 

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