Políticos e activistas traduzem expressão de João Lourenço

Figuras apontam riscos dos discursos inflamados

Políticos e a sociedade advertem que o Presidente da República, se quer combater a corrupção, deve olhar mais para a nação, apostando na materialização das promessas, evitar discursos inflamados e abrir-se mais ao diálogo. O NG foi à procura de perceber quem são os marimbondos referidos pelo Presidente da República em Portugal.

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O Presidente da República reconheceu, em Lisboa, os riscos no combate à corrupção, garantindo que sabia que era preciso muita coragem e que estava a “mexer no ninho de marimbondos”, mas deixando claro que não vai recuar. “É preciso destruir o ninho de marimbondo. Angola tem 28 milhões de habitantes, não há 28 milhões de corruptos”, afirmou. As declarações do chefe de Estado surgiram um dia depois da conferência de imprensa do ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, em que esclareceu que não deixou os cofres do Estado vazios, ao contrário do que disse antes João Lourenço.

Para o jurista e deputado do MPLA João Pinto,

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a metáfora dos “marimbondos” a que o Presidente da República faz referência deve ser entendida como “princípio da oralidade, referindo-se ao combate à corrupção”, lembrando que, quando, há um ano, defendeu que toda e qualquer medida “tinha os seus efeitos negativos e positivos”, terá sido mal interpretado. “É preciso não esquecer que, quando o MPLA decidiu 'corrigir o que está mal e melhorar o que está bem', João Lourenço ainda era o vice-presidente do partido, logo os dois sabiam o que queriam”, acentua João Pinto, advogando que se evite a “chacota e os insultos, porque podem pôr em causa a democracia”.

João Pinto considera ainda que, em Angola, a corrupção se encontra em todas as esferas, por isso entende que o Presidente da República, ao falar da corrupção, não se refere apenas ao ex-Presidente, ou aos bilionários, mas a todos os angolanos, incluindo os que vendem nas ruas.

O brigadeiro Manuel Correia Barros

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considera que os ‘marimbondos’ são “todos aqueles que defraudaram o erário em beneficio pessoal”.  Mas adverte que “se evitem os discursos inflamados e que a história dos marimbondos não se repita”.

“Não vejo qualquer situação sobretudo política que possa pôr em causa o país. Mas é preciso sair do simples discurso e promessas para a acção, porque a população precisa de resultados, pese embora a situação económica não estar boa”, sublinha o vice-presidente do Centro de Estudos Estratégicos de Angola (CEEA). “O maior perigo reside na não concretização das promessas, o que pode resultar em manifestações e descrédito”, alerta.

Ntoni-a-Nzinga entende não ser positiva a posição antagónica que os dois líderes pretendem tomar, considerando que isso só acontece porque “há pessoas que nunca estiveram de acordo com as mudanças”, sublinhando que “muitos corações ainda não estão em paz”.  

O reverendo acredita que combater a corrupção “não é tarefa fácil”, mas insiste que deve ocorrer, para resgatar o país do “marasmo” em que se encontra. “Os discursos não só vão abalar a sociedade, mas também o próprio MPLA, do qual os dois lideres são membros e que governa o país”, invoca Ntoni-a-Nzinga, propondo que “tudo deve ser feito no sentido de se manterem as linhas de comunicação abertas entre João Lourenço e o ex-Presidente da República”, sugerindo até que haja “uma possível mediação”.  

Para o jurista Inglês Pinto, o uso da palavra marimbondo “não passa de uma simples sátira, cabendo a cada um tirar a sua ilação”, mas lembra que, em política, “cada palavra vale pela sua capacidade mobilizadora”. Inglês Pinto defende que “este é um teste de maturidade que estamos a viver”. 

“Os lideres, sobretudo a este nível, têm idoneidade suficiente para dizerem o que bem quiserem, mas o que mais me interessa é que o Presidente se foque nos interesses da nação, evitando alguns excessos”, apelou o jurista, recordando a história menos boa da guerra que dilacerou milhares de angolanos.

O advogado sugere que os membros do executivo tenham "boa capacidade de gestão e negociação" dos acordos que estão a protagonizar no exterior, tendo sempre em atenção a defesa do interesse nacional, para não se repetir o que, segundo ele, ocorreu após a independência. 

Por outro lado, Willy Piassa entende que o Presidente da República demonstrou ser “um exímio seguidor do poderio da oralidade ancestral africana”, ao comparar a “luta contra a corrupção” a um “ninho de marimbondo”, considerando que “a beleza da oralidade africana está na capacidade de enquadrar provérbios, ditados, contos e fábulas complexas, que ajudam na transmissão da mensagem”. 

 


Alertas 

O general na reserva Abílio Kamalata

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'Numa' considera que, quer o ex-Presidente quer o actual "não podem continuar a brincar com a sensibilidade dos angolanos", realçando que, quando o MPLA decidiu combater a corrupção, sabia, de antemão, que "não seria tarefa fácil". “Esse combate não pode ser uma guerra de quartéis ou pessoalizado, porque pode descambar o país”, adverte o ex-vice chefe do Estado Maior das Forças Armadas Angolanas (FAA), sublinhando que João Lourenço "não pode vir a publico, um ano depois, dizer que não houve passagem de pastas", sustentando que "o MPLA, desde 1974, procura inimigos para governar.

“Desta vez, os inimigos são internos, tal como aconteceu a 27 de Maio de 1977. Essa política de privatizações de empresas ou saneamento já assistimos nos anos 1980, mas não resultou”, recorda.

Por outro lado,

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João Paulo Ganga alertou, na TV Zimbo, para que Presidente tenha "cuidado" com os discursos. O sociólogo e comentador  aconselha o Presidente a "moderar a linguagem", lembrando os "discursos bélicos" de João Lourenço, depois da eleição como presidente do partido, segundo os quais, "o combate vai ser um facto nem que os primeiros a tombarem sejam do MPLA".