‘Clássicos’ internacionais pouco atractivos

Teatro nacional com poucas adaptações

Contam-se pelos dedos os grupos teatrais que fazem adaptações de grandes clássicos da dramaturgia internacional. O Elinga Teatro é apontado como a maior referência. Das já feitas, William Shakespeare, considerado o maior escritor inglês e o mais influente dramaturgo do mundo, é também o mais escolhido no teatro nacional com as peças ‘Mercador de Veneza’, ‘Hamlet’, ‘Romeu e Julieta’ entre outras. Mas adaptar peças internacionais tem “riscos”, alertam encenadores.

Teatro nacional com poucas adaptações
Mário Mujetes
Horizonte Njinga Mbande
Adelino Caracol

Adelino CaracolEncenador do Horizonte Njinga Mbande

Se não trabalharmos com qualidade as suas obras, acabaremos por deteriorá-las pela sua dimensão inimaginável.

Além de William Shakespeare, dramaturgo que tem a sua obra literária mais interpretada pelo mundo, os poucos encenadores e dramaturgos angolanos, que fazem adaptações de clássicos internacionais, optam por Jean Baptista Pokequelim ou simplesmente Mollier, Eve Ensler, Victor Hugo, entre outros.

A fraca adaptação de clássicos internacionais para o teatro nacional é apontada como “falta de pesquisa e de interpretação”, por parte dos encenadores, critica Flávio Ferrão. No entanto, o encenador do grupo Henrique Artes também admite nunca ter feito uma adaptação de clássicos internacionais, porque tem consciência de que “não é trabalho nem são montagens fáceis”, pois entende que, além destes pormenores, entram os custos “elevados” para a montagem das peças. “Adaptar, buscar figurinos de épocas e outros não ficam baratos nem a nível de preparação de actores para as respectivas montagens. É algo que deve ser bem elaborado, pelo menos, seis meses e aqui esse tipo de montagens sem patrocínios é complicado”, lamenta.

Flávio Ferrão reconhece que o Elinga Teatro é dos poucos, senão o único grupo, que faz adaptação de grandes obras “com a referida elegância e estética artística pela grande qualidade e conhecimento que tem José Mena Abrantes. Claro que, a nível do teatro angolano, somos muito poucos”.

O encenador teme que a falta de criatividade possa tornar a execução “infeliz”, porque acredita que se pode estar a “ridicularizar” uma grande peça. Entende assim que, se for para montar, para este género de espectáculos adaptar a alguma realidade, “deve ser-se exímio em todos os aspectos”.

Outro encenador dos mais emblemáticos grupos, o Horizonte Njinga Mbande, Adelino Caracol dos Santos, lembra já ter feito recurso a clássicos internacionais como ‘Os Borgias’, de Victor Hugo, dramaturgo francês, ‘Importância das coisas sem importância’, do português Armando Moreno, entre outras obras.

No entanto, o director do grupo alerta para se ter em atenção o estudo dos códigos e signos dos angolanos, porque “são diferentes da origem das obras”.

“Nós temos uma vivência, sociologia e padrões, quando se adapta a peça, é necessário que se saiba dentro do ponto de vista dos receptores, quais os signos e formas, senão ficamos apenas numa cópia ao produto original, mas as pessoas que recebem os espectáculos são diferentes, é necessário que se tenha em conta isso também.”

Os clássicos “exigem” uma preparação para que “não percam” qualidade. William Shakespeare é “património mundial”, destaca Adelino Caracol, que se mostra preocupado pela forma como se adaptam as obras do dramaturgo britânico. “Se não trabalharmos com qualidade as suas obras, acabaremos por deteriorá-las pela sua dimensão inimaginável”, alerta.

 

Internacionalização

Adelino Caracol arrisca também a encontrar peças escritas por angolanos como universais. Entre elas, destaca ‘Lueji’, peça adaptada do romance de Pepetela, ‘Sobrevivendo no Tarrafal’, de António Jacinto, e ainda o ‘Feiticeiro e o Inteligente’, do grupo teatral Etu Lene.

De acordo com o encenador, para que sejam considerados clássicos internacionais, “tem de se dar importância à dramaturgia” e que se expanda a escrita teatral para outros grupos. O encenador exemplifica com a apresentação das peças ‘Óbito, proibido chorar’ e ‘O feiticeiro e o Inteligente’. Um grupo português mostrou-se disponível encená-las  em Portugal, no caso de uma delas, transpô-la para cinema.  Adelino Caracol aconselha ainda que se trabalhe mais nos aspectos das vivências angolanas, o que considera “não ser mau de todo” e tem esperança de que, dentro de alguns anos, “venhamos a ter clássicos do teatro a nível do mundo”, pois “não existem culturas superiores às outras”. “É importante que traduzamos as nossas obras em clássicos”, reforça.

 

Dificuldades

Ultimamente, Angola assistiu à adaptação de peças como o ‘Monólogo da vagina’, ‘Mercador de Veneza’, ‘Romeu e Julieta’ ou ‘Hamlet’. Adelino Caracol elogia a coragem de produtores, técnicos e encenadores. “As peças foram bem recebidas, embora ache que, do ponto de vista técnico, deviam ser melhores”, alerta o encenador

Teatro nacional com poucas adaptações

Por outro lado, Miguel Hurst, dramaturgo e actor, questiona-se se será preciso “adaptar” as peças à nossa realidade sendo o teatro uma linguagem universal.

“Penso que não!”, responde às suas inquietações. Defende que, para Angola ter uma linguagem universal, devia preocupar-se em fazer clássicos nacionais. “Temos um Elinga que adapta teatro, muito pela mão de Mena Abrantes. Nós temos de descobrir onde é que o tema nos toca e não termos de descobrir a adaptação”.

 

Há pouca investigação

Segundo o dramaturgo, que já adaptou ‘Monólogos da vagina’, da autora norte-americana Eve Ensler, o interesse ao acesso é que falha nos grupos. E alerta aos directores artísticos para terem mais curiosidade, porque a adaptação “não é um ‘bicho-de-sete-cabeças” e a fazerem pesquisas na internet. “No mundo, já se escreveu muita coisa, mas nada nos impede de escrever as nossas coisas também.”

Miguel Hurst confessa que quando adaptou os ‘Monólogos da vagina’, quase foi censurado, porque ligaram o título a conteúdos pornográficos. “Tive de ter alguém no Ministério para explicar que não se tratava de pornografia”, recorda.