Albertina Capitango, 16 anos a estender a mão aos mais necessitados

Uma actriz solidária fora dos palcos

Albertina Capitango ficou conhecida como a ‘Única Filha’, por ter sido uma das personagens principais do filme com o mesmo nome, realizado por Biju Garizim. Actualmente, fora dos palcos e das telas, dedica-se a ajudar crianças, jovens e famílias desfavorecidas. Ser solidária já lhe valeu a alcunha de “maluca”, mas nem isso a abalou.

Uma actriz solidária fora dos palcos
Mário Mujetes
Um lar para 27 pessoas, onde vivem crianças e jovens.
Albertina Capitango,

Albertina Capitango, mentora do projecto

Criou o projecto porque, ao observar a sociedade, percebeu que muitos jovens estavam perdidos nas drogas e na delinquência

Numa casa de apenas três quatros, Albertina Capitango, de 38 anos, fez dali um lar para 27 pessoas, onde vivem crianças e jovens, com idades compreendidas  entre os dois e 25 anos. É o Centro de Acolhimento Não Há Órfãos de Deus, localizado no Zango 4, em Luanda.

O projecto existe há 16 anos e apoia famílias que vivem em extrema pobreza, órfãos e crianças acusadas de feitiçaria e abandonadas por pais alcoólatras e mães ligadas à prostituição. Os objectivos passam por formá-los e ajudá-los a criar metas para, de seguida, serem ‘devolvidos’ à sociedade.

Todos os dias juntam-se ao quintal do centro e aos 27 jovens que ali habitam cerca de 31 pessoas, fazendo assim um total de 58 para receberem alimentação; são famílias desfavorecidas que vivem próximo do orfanato e que, muitas vezes, dependem dele para pelo menos fazerem uma refeição por dia.

Albertina Capitango criou o projecto porque, ao observar a sociedade, percebeu que muitos jovens estavam perdidos nas drogas e na delinquência, além das famílias que vivem em situação de extrema pobreza, de crianças órfãs e abandonadas pelos próprios parentes. A ânsia de ajudar os que sofrem era muita.  Ainda na sua própria casa, na altura, no Rangel, em Luanda, a actriz chegou a acolher mais de 50 pessoas, o que levou a vizinhança a tratá-la por “maluca”. “Ela não tem condições e quer apoiar tanta gente porquê? Ela é maluca”, recorda-se dos comentários dos vizinhos.

Em resposta aos vizinhos, Albertina afirmava: “Loucura é ver famílias desestruturarem-se, crianças desistirem de si próprias antes de chegarem à idade certa, jovens terminarem com a própria vida, usando drogas e álcool, mulheres perdidas na prostituição e não fazer nada, isto sim é que é loucura”. E seguiu com os seus objectivos, mesmo sem ter condições financeiras para ajudar tanta gente entregando assim o futuro das pessoas que ajuda à sorte.

Natural da Huíla, e formada em Psicologia Social, Albertina Capitango, no meio de diversas dificuldades para concretizar com sucesso a sua iniciativa, pediu apoios a algumas instituições, mas estas mostraram-se indiferentes. Mas nem por isso desistiu.

Com a ajuda de patrocínios, conseguiu manter o projecto há três anos. A casa foi emprestada. Era uma residência sem janelas, pintura e portas. Só que a proprietária ficou doente e sentiu a necessidade de a vender para custear o seu tratamento. Das duas uma; ou abandonavam a casa ou compravam. A notícia abalou o sonho de todos os beneficiários do projecto. Albertina Capitango perguntava-se como iria conseguir quatro milhões e meio de kwanzas. Mas, com a ajuda da Zap e de alguns ‘padrinhos’, conseguiu patrocínios, com uma parte do dinheiro que serviu para a compra do espaço, estando a faltar agora um milhão e meio de kwanzas para a aquisição definitiva. Por isso, apela à sociedade que ajude com os valores em falta, mas também com arroz, fuba de milho, feijão, açúcar, vestuário, água, material escolar e outros.

A trabalhar com quatro voluntários, a actriz explica que “não tem sido fácil” gerir todas as pessoas que acolhe. Cada uma enfrenta vários tipos de problemas, além de fazerem parte de culturas e educação diferentes.

Entre os diversos jovens, o centro acolhe sete irmãos. Os pais encontram-se doentes e, por isso, viram-se obrigados a entregar os filhos ao orfanato. O pai, por conta de um AVC, ficou imobilizado, foi expulso da casa de renda, estando agora a viver numa casa de chapa de apenas um quarto e sem condições habitacionais e financeiras para albergar os filhos.

O sustento do centro e a formação das crianças e dos jovens são pagos com o salário que Albertina Capitango ganha (45 mil kwanzas) como funcionária do GPL e da ajuda de indivíduos e associações que admiram e se solidarizam com o trabalho e com a história de cada um dos membros do centro.

Além da formação académica, os pequenos e jovens dedicam-se ao desporto, à religião, dança, música, teatro e literatura.