Irina Vasconcelos, a voz feminina do rock e jazz alternativo de Angola

“Sou uma activista cultural, batalho pela cultura”

Irina Vasconcelos prepara o lançamento do próximo álbum ‘Cai’, para Julho. Considera-se uma guerreira positiva. Defende que a arte é um serviço público e que o artista deve trabalhar para a sociedade e não usufruir só do dinheiro dela. Longe de ser uma feminista acérrima, agradece a todas os que já existiram, porque permitiram a sua liberdade existencial e contesta que se usem artifícios para se sentir bela.

“Sou uma activista cultural, batalho pela cultura”
Manuel Tomás
A música é o único fenómeno que nos une pela dança, a ligaçã
Irina Vasconcelos:

Irina Vasconcelos:mentora da banda de rock Café Negro,

O artista deve trabalhar para a sociedade e não para usufruir só do dinheiro da sociedade. Às vezes, há aquele fã que aufere menos que nós, mas tira do bolso cinco mil para assistir a um concerto nosso.

Realizar concertos dedicados às mulheres tem algum significado?

As mulheres devem ser celebradas sempre! O facto de existir um dia dedicado à mulher é porque a violência ainda é uma questão que devemos debater e consciencializar. Por causa dos últimos acontecimentos, como o caso da zungueira que foi baleada pela polícia e, como artista, não posso ficar indiferente, devo celebrar as mulheres pelos melhores motivos.

A mulher é o ventre da sociedade que possivelmente não foi educado. Ao longo dos séculos, tivemos exemplos de várias mártires. A educação e a informação estão do nosso lado, devemos reflectir e sempre com uma rosa na mão. A cultura angolana ajuda-nos a celebrar a mulher lindamente.

 

A realidade actual do mundo, em particular, África e Angola, como as guerras, violações, assassinatos, suicídio, entre outras atrocidades menos boas, inspira-lhe mais pelo apelo à mudança ou cria revolta?

Sou guerreira e um poço de positividade! Sempre que há algo de errado, tenho mais forças para fazer melhor. O continente africano está dividido por três línguas de colonizadores, português, inglês e francês. Mas, entre nós, temos as nossas próprias línguas. A música é o único fenómeno que nos une pela dança, a ligação entre os africanos é espiritual. O mundo está minado com coisas más, mas em sete biliões de pessoas não nos vão dizer que a maldade está a proliferar, nós é que temos de fazer notícias boas.

Apesar de ser uma pessoa muito recta a defender a justiça e a contradizer contra a maldade no mundo, sempre escrevo sobre o amor e a capacitação individual. Tenho notas bibliográficas para exemplificar que é exactamente possível sair do nada e tornar-se o que se pretende.

 

E como é que se alcança?

Para isso, basta que se incentivem e se cultivem coisas boas. A leitura é muito importante, estar com a família também, e ter uma boa equipa de trabalho que passa motivação. Sou uma pessoa muito abençoada.

Se sou a melhor no que faço, no rock e jazz alternativo, é porque o meu país me deu. Adoraria viver mais numa Angola que está na minha cabeça.

 

O rock e o jazz alternativo são um casamento perfeito ou é um improviso que deu certo?

É o casamento perfeito, porque a música angolana dos anos 1960 e 1970 sempre foi a mistura do rock e o jazz. Na verdade, o rock e o jazz nasceram de África, portanto, se foi um instrumento que deu certo, não sou eu que terei criado (risos). É um fenómeno muito mais ancestral.

Se tirarmos o kuduro do estúdio e retirarmos os ‘bits’, é música tradicional. O rap, se tirarmos do estúdio e pusermos a tocar ao vivo, passa a ser jazz com lírica interventiva. Normalmente, quem acha estranha a mistura dos dois estilos é a pessoa que se acha muito conhecedora da música, mas não conhece, na verdade. Se fizermos uma catalogação das músicas nacionais, vai dar conta que é sempre rock e jazz alternativo, tudo produto de África.

O meu artista preferido é Artur Nunes. Gosto muito do Filipe Mukenga e Vunvum, inspiram-me muito, porque se percebe que aquilo é rock e jazz alternativo.

 

E a parceria com a Puro Malte?

Tive o prazer de conhecer no festival da Cerveja que ocorreu a 30 de Novembro. Eles fazem a cerveja artesanal e desenhámos alguns projectos, na perspectiva de trazer novos talentos musicais e pretendemos lançar em Julho o meu álbum ‘Cai’ e será também neste espaço.

 

A sua personalidade pode ser motivo de estudo?

Motivo de estudo deve ser algo que seja sucesso. Não sei como responder a essa pergunta, porque estaria a ser pouco humilde e, à medida que atinjo a maturidade, quero ser mais humilde. A pergunta é muito interessante, mas o facto de não ter resposta, também é um bom indicador. Ainda estudo outras pessoas, mas o que faço é orgânico. O facto de vocês estarem aqui. Gostaria de ser um projecto de estudo. Daqui a 200 anos, quando não estiver, gostaria que, nessa altura, existissem discos meus e bibliografias.

 

Numa das suas publicações, deixou este recado: “Seja um artista, não seja um ‘show off’, você não é Deus”. Tem presenciado essa realidade em Angola?

Completamente! O ‘mainstream’ tem a capacidade de massificar o trabalho. Há determinados estilos em que se ouvem cinco artistas e dá a impressão que a música é a mesma, porque o conteúdo não fica marcado na memória do público, porque o artista acha que pode escrever um bocadinho e já o é, daí esse ‘post’. A arte é um serviço público. As letras devem ser pensadas, para que fiquem na mente. Em vez de pôr ‘aba no rabo, aba no rabo’ põe a música da Irina, que fala sobre motivação e esperança. Nós, artistas, não devemos cantar só sobre sexo, carro e traição. Isso não é o nosso maior problema. Devíamos cantar o oposto. Imagine se o ‘mainstream’ apostasse na música tradicional? Teríamos o hastear a bandeira nacional.

As suas publicações têm muito um pendor educativo e motivacional…

Como existem tantas dificuldades na nossa sociedade, é normal que queiram o imediato e que quase vendam a sua alma por isso, Não o faço e não desejo a ninguém. O artista deve trabalhar para a sociedade e não usufruir só do dinheiro da sociedade. Porque, às vezes, há aquele fã que aufere menos que nós, mas tira do bolso cinco mil para assistir a um concerto nosso. Isso deve ser valorizado! Não posso, de ‘pé para mão’, fazer letras à toa, porque quem me dá motivação é essa sociedade.

 

Religião e espiritualidade…

Sou muito espiritual, mas não sou muito das igrejas. O melhor templo de Deus é ter a mente e o coração calmos. A religião é algo que nos está a fazer ficar escravos de algum preconceito. A religião não é Jesus, não é Deus. Acredito efectivamente na espiritualidade ancestral e na irmandade. São as coisas que me governam.

 

Identifica-se com as correntes feministas?

Não sou acérrima do feminismo, mas agradeço muito a todas as feministas que já existiram neste mundo, porque permitiram a minha liberdade. Se não existissem, não poderia trabalhar, nem votar, seria uma escrava sexual. Sou uma activista cultural, batalho para a cultura. É muito importante o trabalho das feministas, porque dão a cara para a igualdade. Sempre que precisarem de mim, estarei do lado delas.

Até hoje, é a única mulher no rock que tem protagonismo. A que se deve a ausência de outras mulheres?

Tenho a certeza de que existem. O que não existe é a capacidade de termos bandas para elas. O que é necessário que ocorra é que os instrumentistas de outros estilos se predisponham também a aceitar vocalistas de rock, para que essa semântica ocorra. O melhor aprendizado que tive foi com o Café Negro.

 

Sempre gostou de desafios como a criação da banda ‘Café Negro’, os projectos ‘Música da Banda’, ‘Kianda Soul’, ‘Etimba Fest’, entre outros. Quais os projectos prioritários para este ano?

Fui mãe pela segunda vez. O meu maior forte é desenhar projectos culturais. A prioridade deste ano é lançar, em Julho, o álbum ‘Cai’, que vai acontecer na Cervejaria Puro Malte. E, a 25 de Janeiro de 2020, lançar a quarta edição do Etimba Fest, em Luanda, em local a indicar, com entradas gratuitas.

 

Comente esta frase: “Minha beleza nunca vai ser um empecilho para as pessoas, porque não é nada que me preocupa”.

Essa frase pode ser um pouco perigosa, porque a palavra beleza é subjectiva de quem a diz e de quem a vê! A beleza não é algo palpável, é algo que se sente intermitentemente, hoje mais do que ontem. A cada dia, vive-se a beleza. Sou contra as perucas. Prefiro ser uma feia estrábica a ser uma mulher de peruca, completamente fútil e insensível. A beleza é algo que se cultiva naquilo que nós sentimos, não existe beleza constante. Não é só a juventude que é bela! ‘Smartphones’, unhas postiças, maquilhagem não fazem da pessoa mais do que a outra, que todos os dias chega a casa e lava a roupa. Sempre que sinto que sou menos bonita, todas as pessoas, à minha volta, fazem-me sentir o contrário e retribuo sempre com um bocadinho de humor.

A senhora do rock

Irina Vasconcelos, de 34 anos, actualmente vive com o esposo e os dois filhos na Zâmbia. É mentora da banda de rock Café Negro, fundada em 2008, que foi premiada em 2014 como grupo do Ano no Angola Music Awards, e dos projectos Kianda Soul e Etimba Fest. Tem programado, para Julho, o lançamento da obra a solo ‘Cai’. E a 25 de Janeiro de 2020, lançar a 4.ª edição do Etimba Fest, desta vez, em Luanda. Durante quatro anos, foi directora artística do ‘Rock in Rio Catumbela’.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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